sábado, 3 de setembro de 2011

Nem mesmo uma escolha.


Amar não é uma decisão, não é um sentimento, nem mesmo uma escolha, amar é dedicação e entrega, amar é um verbo que conjugado se torna amor. Antes da decisão tem que haver uma escolha e antes da escolha tem de haver um sentimento, os sentimentos precisam de uma decisão e as decisões precisam de sentimentos, sentimentos simples, alicerces onde podem ser construido grandes coisas, inclusive o amor. Amar é uma construção, onde temos sentimentos, fazemos escolhas e tomamos decisões... Amemos-nos, isso basta.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Lobo e o Falcão.


(Outro final para a história do feiticeiro que transformou dois amantes em falcão e lobo. O feitiço fica para sempre, mas a transformação acontece para ambos no mesmo horário. )

“Ele, guerreiro, cavalgava um cavalo negro. Seus olhos eram tranqüilos, seu rosto era triste, seus cabelos eram dourados como a luz do Sol, e a sua voz só se ouvia depois de longos silêncios.

Ela, diáfana como a Lua, cabelos negros como a noite e voz mansa como a luz das estrelas.

Eles muito se amavam. Mas havia naquela terra um feiticeiro das trevas. Ele se apaixonou pela moça-lua. Quis tê-la para si mesmo. Mas ela amava o guerreiro e repeliu os gestos do feiticeiro. Este, enfurecido, lançou sobre os amantes um feitiço: estariam condenados, pelo resto dos seus dias, a nunca se tocarem. A mulher seria como a Lua. Só apareceria à noite, depois de o Sol se pôr. Durante o dia ela seria um falcão branco. E seu amado seria como o Sol: só apareceria durante o dia. Durante a noite ele seria um lobo negro.

E assim aconteceu. Durante o dia o guerreiro cavalgava o seu cavalo levando no ombro sua amada, o falcão branco. Durante a noite o falcão voltava a ser mulher e ficava ao lado do seu amado, lobo negro.

Mas havia um breve momento encantado quando eles quase se tocavam. Ao pôr-do-sol, quando a luz do dia se misturava com o escuro da noite, o falcão voltava a ser mulher e o guerreiro se transformava em lobo. Ao nascer do Sol, quando o escuro da noite se misturava com a luz do dia, o lobo voltava a ser guerreiro e a mulher se transformava em falcão. Nesse brevíssimo momento os dois apareciam um ao outro como sempre tinham sido… Suas mãos se estendiam, uma querendo tocar a outra — mas o toque era impossível porque antes que suas mãos se tocassem a metamorfose acontecia.

O guerreiro amava o falcão. Ele sabia que dentro do falcão vivia sua amada, encantada. Ele acariciava suas penas — mas um falcão não é uma mulher. Ele a carregava movido pela esperança de que, um dia, o feitiço fosse quebrado.

A mulher amava o lobo. Ela sabia que dentro do lobo vivia o guerreiro de olhos profundos que ela amava, encantado. Ela acariciava o seu pêlo negro — mas um lobo não é um homem. Ela o acariciava movida pela esperança de que, um dia, o feitiço seria quebrado.

Mas o amor é mais forte que os feitiços maus. E aconteceu que, um dia, depois de uma luta horrenda, o feiticeiro foi morto e o feitiço foi quebrado. E o guerreiro voltou a ser o guerreiro que sempre fora, e a mulher voltou a ser a mulher que sempre fora. E as suas mãos puderam se tocar e tudo foi alegria e eles se casaram e viveram felizes para sempre…”

Assim termina a estória tal como me foi contada, com um final feliz.

Mas eu, que também sou feiticeiro, imaginei um outro final para esta mesma estória. E é esse outro fim que passo a contar.

O guerreiro, não podendo suportar a tristeza da sua condição, resolveu procurar um feiticeiro bom que tivesse poder maior que o feiticeiro mau. Ele se chamava Merlin. O guerreiro foi a sua morada-caverna, no alto de uma montanha, levando ao ombro o seu falcão. Lá chegando contou-lhe a sua desgraça e formulou o seu pedido: queria que ele e sua amada deixas sem de ser lobo e falcão e voltassem a ser homem e mulher para que pudessem se amar.

Merlin fez um grande silêncio e lhe disse: “Não posso atender o seu pedido porque isso seria a sua perdição, o fim do seu amor. A magia nada cria. A magia só tem o poder para trazer das profundezas aquilo que lá existe. Você, no fundo da sua alma, é um lobo selvagem. A sua amada, no fundo da sua alma, é um falcão selvagem. Ela o ama porque vê, no fundo dos seus olhos mansos, um lobo que anda sem medo por florestas escuras. E você a ama porque vê, no fundo dos seus olhos mansos, um falcão que voa sem medo nas alturas. Se eu, por um feitiço, destruir o selvagem que há em você e o selvagem que há nela, não mais haverá mistérios dentro dos seus olhos. Vocês se transformarão em animais domésticos: um cão que abana o rabo para ganhar um osso, uma pata que rebola sem poder voar. Domesticados, vocês se transformarão em seres banais. Você não terá estórias das matas escuras para lhe contar nem ela terá estórias de vôos pelos picos gelados das montanhas para lhe contar. E o seu amor se transformará num tédio interminável.”

O guerreiro chorou. “Então, nosso amor está condenado?” “Não”, disse Merlin. “Há esperança, mas não do jeito como vocês querem. Não vou desfazer o feitiço. Vou rearranjar o feitiço. Quando os primeiros raios de Sol iluminarem o horizonte você se transformará em lobo e ela se transformará em falcão. Você irá para o mistério das matas e ela para os mistérios dos céus. Vocês serão selvagens, ao mesmo tempo, cada um no seu mundo. Quando o Sol se puser e a primeira estrela aparecer, você voltará a ser o guerreiro-sol e ela voltará a ser a mulher-lua. Aí então, vocês se encontrarão…”

Ditas essas palavras, Merlin ficou silencioso. Acendeu a fogueira na sua caverna porque estava ficando frio. O Sol estava se pondo. A noite se aproximava. Aceso o fogo, ele pronunciou palavras de bruxedo e despediu o guerreiro com o seu falcão.

O guerreiro, falcão no ombro, começou a longa descida da montanha para a planície. Seu rosto estava iluminado pelos últimos raios do Sol que se punha. E foi então que, no meio do céu, ele viu a primeira estrela que aparecia…

Rubem Alves

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Esplendor


"Nós sabíamos que o mundo não seria o mesmo. Algumas pessoas riram, algumas pessoas choraram, a maioria das pessoas ficaram em silêncio. Lembrei-me da frase do texto "sagrado hindu, o Bhagavad-Gita". Vishnu está tentando persuadir o príncipe que deve fazer o seu dever e para impressioná-lo assume sua forma multi-armada e diz: "Agora eu me tornei a morte, o destruidor de mundos."
Discurso de Julius Robert Oppenheim

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Segunda parte.


Muitos nunca foram amigos de verdade, porém juro que tentei ter com eles.
Alguns se aproximaram por conveniência, juro que correspondi com alegria sincera.
Poucos são os verdadeiros, juro que eles não desistirão de mim... Foram, são e serão.
Eles são os meus amigos, minha segunda parte.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vou fazer acontecer.


Eu gosto de fumaça e relâmpago, o estrondo do trovão correndo com o tempo e o sentimento que ele provoca em mim. Sim querida, vou fazer acontecer, pegue o mundo num abraço carinhoso, dispare todas as suas armas ao mesmo tempo e exploda espaço afora. Nós nascemos para ser selvagens... Foda-se o mundo, pois minha vida é maior que ele!

domingo, 31 de julho de 2011

Ponto de Ruptura.


Toda crença é um obstáculo à fé, as crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião, a fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida.
Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, e têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária, a crença é confortadora.
Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro, se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita.
A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões.

Jacques Ellul

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Dona de 7 colinas.



Ela é dona de 7 colinas
Debruçadas na beira do mar
Transparente, solar, cristalina
Feminina, muito mais que linda

Caeté, lusitana, guerreira
Tem no peito o fogo da paixão
Preguiçosa, morena, faceira
Ela é dona do meu coração

Seu estilo discreto e elegante
Se transforma e no Carnaval
É cigana, boneca-gigante, sensual

Quantos becos, esquinas, ladeiras,
Quantas ruas a se percorrer
Nós brincamos até quarta-feira
Pelo simples prazer do prazer

Alceu Valença

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Eterno momento de nós dois...


Momentos falam muito, um momento tão teu, onde estou presente deixando tão nosso, porém um momento ainda tão secreto, momento bonito, momento guardado. Um presente, uma lembrança. Somos nós dois. Eterno momento de nós dois...

Meu mapa astral...(alguém acredita?)


O signo de Capricórnio, é o décimo signo do Zodíaco e inicia em 22 de Dezembro e termina em 20 de Janeiro. É um signo Cardeal, de Terra, e é governado pelo planeta Saturno. Sendo um signo tortuoso e violento, esconde dentro de si as emoções que ele não consegue exteriorizar e que tanto o atormentam.
Apreciando a constância e a lealdade, os capricornianos são ótimos amigos, mas expressam dificilmente suas emoções, parecendo sempre distantes e frios. Ele "deseja ardentemente se apaixonar", mas isto não está em seus planos mais íntimos e nem em sua natureza, mais fria e calculadora. Pela sua excessiva praticidade pode deixar o companheiro constantemente frustrado, já que não é dado a grandes efusões e é capaz de estragar os momentos mais sentimentais, tirando o ânimo e estragando a brincadeira.
Os natos deste signo são pessoas aparentemente calmas e controladas, raramente se abalando com os acontecimentos. São porém bastante negativos, se fechando num mundo próprio e se tornando inacessíveis como as altas montanhas que tanto os atraem. Os lugares elevados e isolados são seus prediletos, já que são governados pelo planeta Saturno. Têm uma tenacidade incrível para superar obstáculos e lutam para alcançar o que desejam. Têm muitas vezes uma infância difícil e não raro, cheia de responsabilidades.
Sendo pessoas determinadas e ambiciosas, vão lutar para alcançar a sua meta, custe o que custar, e gostam de alcançar postos elevados, como políticos, ministros, diplomatas. Não se contentam com pouco e acumulam sua fortuna pacientemente, como formigas trabalhadeiras. Se de um lado isto os ajuda a "subir na vida", por outro lado, o excessivo senso de responsabilidade e o senso do dever, lhes dá o "complexo de ATLAS" isto é, gostam de carregar o mundo em suas costas! Mas como se queixam! Podem se tornar egoístas, pessimistas, um pouco tacanhos! E muitas vezes aparentam ser frios e reservados, dando muita importância a seus princípios tradicionais rígidos e inflexíveis!
Você que tem o Ascendente em Libra, é seguramente uma pessoa refinada e de bom gosto. A atração pelas artes e a necessidade de um ambiente belo e refinado torna-se imprescindível quando Libra ascende no mapa. A sua necessidade de expressar o afeto o torna um ser sociável e amável com todos, mas também pode ser interpretada como fraqueza se você demonstrar indecisão e falta de firmeza em suas atitudes. Buscando sempre o seu “par ideal” terá como meta prioritária formar parcerias e suas maneiras doces e diplomáticas fazem de você uma pessoa querida em todas as reuniões sociais.

Não acredito em um só linha, mas gostei... rs

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Um acaso de propósito.


Quero que o acaso se transforme em um propósito, fazendo o presente valer a pena e o futuro se torne um detalhe…

Quero refletir o passado, porém não o repetir, se eu achar que o futuro a construir no presente vale a pena, que eu faça acontecer...

Se pelo menos o pensamento não sangrasse, se pelo menos o coração não tivesse memória, como seria menos linda e mais suave minha história.

Eu vou caminhar em seu jardim...


quarta-feira, 29 de junho de 2011

Por isso resolvi plantar estrelas...


O silêncio delas é a resposta a tua falta
a calma, a brisa, o grilo
O brilho delas é a resposta a tua dor
o sorriso, a beleza, a destreza
O amor que tenho por elas é o mesmo
que a ti eu tenho
A ti eu venho propor

Um brinde ao futuro, sem temer o passado
superando o presente, a gente se rende
a um sentimento que nos prende
Esse que só cabe a nós.

O sentido delas é a resposta a tua falta
a alma, a calma, esperança
A lembrança delas é a resposta a tua dor
Uma flor no seu jardim
O amor que tenho por ti é
uma constelação
Por isso resolvi plantar estrelas...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cuidarei do seu jardim.


Quero também ter a felicidade de poder conversar com meus amigos sobre minha morte. Um dos grandes sofrimentos dos que estão morrendo
é perceber que não há ninguém que os acompanhe até a beira do abismo.
Eles falam sobre a morte e os outros logo desconversam.
“bobagem, você logo estará bom…”
E eles então se calam, mergulham no silêncio e na solidão, para não incomodar os vivos. Só lhes resta caminhar sozinhos para o fim.
Seria tão mais bonita uma conversa assim:
“Ah, vamos sentir muito sua falta. Pode ficar tranquilo: cuidarei do seu jardim. As coisas que você amou, depois da sua partida, vão se transformar em sacramentos: sinais da sua ausência. Você estará sempre nelas…”
Aí os dois se dariam as mãos e chorariam pela tristeza da partida e pela alegria de uma amizade assim tão sincera.

Rubem Alves

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Amor Tranquilo.

"Eu quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida."

(Cazuza)


É assim que o poeta traduz o amor; a tranquilidade de quem ama, de quem sabe viver o momento tranquilo, sem tantas emoções destrutivas e ao mesmo tempo ter um desejo carnal, profano, físico e animal. "O poeta está vivo, foi ao inferno e voltou."

A sorte de um amor tranquilo é difícil quando o outro te acha o próprio demônio levando-o para um mundo de perversão, enquanto tu acha que o mesmo é algo divino que veio te salvar da tua vida pregressa.

A fruta mordida é sempre mais fácil porque embora Divina e confundida com profana, ela sempre é mais prazerosa, e quando interpretada corretamente se torna tão Divina quanto a própria humanidade.

Precisamos de um amor tranquilo para morder nossas frutas e ter o sabor esperado. O poeta traduziu, agora citemos, vivamos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Alguém Me Disse



Disseram-me que as nossas vidas não valem grande coisa,
Elas passam em instantes como murcham as rosas.
Disseram-me que o tempo que desliza é um bastardo
Que das nossas tristezas ele faz seus investimentos

Disseram-me que o destino debocha de nós
Que não nos dá nada e nos promete tudo
Faz parecer que a felicidade está ao alcance das mãos,
Então a gente estende a mão e se descobre louco

No entanto alguém me disse...
Que você me amava,
Foi alguém que me disse que você me amava.
Seria possível então?

Mas quem me disse que você me amava?
Eu não recordo mais, já era tarde da noite,
Eu ainda ouço a voz, mas eu não vejo mais seus traços
'ela ama você, isso é segredo, não diga a ela que eu disse a você'

Sabe, alguém me disse...
Que você me amava, disseram-me isso de verdade...
Que você me amava, Seria isto possível então?

Carla Bruni / Léos Carax

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Eu, Tu, Nós e nada mais...


Devia ser Eu, um poeta bandido boêmio, pois eles amam e são rejeitados, e no abraço profano, na mesa cantando, desamarram seus laços. Devia ser Tu, profeta devassa que mata o poeta bandido boêmio, que na ponta da seta ergue seu prêmio, a dor de mais um. Devia ser Nós, a dor do poeta, a amargura do profeta, a ternura do boêmio, a carência da devassa, a dor e a pureza do amor. Um cego segurando uma flor, que não vê sua beleza mas sente seus espinhos. Um do outro e o outro em si, existência mútua. Devia ser Eu, Tu, Nós e nada mais...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

HOMOSSEXUALIDADE E LIBERTAÇÃO HUMANA


O momento apaixonante merece um texto apaixonado, mas somente os poetas tem a habilidade de sugerir vertigem e volúpia pelo entrelaçar das palavras. Como não sou poeta celebro em texto comum a decisão do Supremo de legalizar o legítimo direito dos homossexuais de constituir amor e família. Desses instantes que fazem jus a festa, dança e feriado nacional. Caíram as cercas da praça, mas o povo desacostumado não consegue invadir o espaço para deitar na grama, girar na roda gigante ou dançar ciranda.

A unanimidade da decisão nos surpreendeu, embora o nosso tribunal maior apenas reconheça um direito já exercido por mais de dez milhões de brasileiros. Maneiras de reconhecer a humanidade de minorias. Ser humano é ir se estabelecendo na diversidade e na inconclusão. Os diversos modos de se amar, a exuberância de uma sexualidade que se estabelece sem respeito a regras e manuais, são expressões legítimas dessas diferenças que transformam a paisagem humana em poesia e beleza.

Homossexualidade é palavra que tenta definir o indefinível, pretendendo retirar do ser humano parte de sua humanidade. Faz pouco tempo, comemorava em um restaurante um aniversário, na companhia de amigos e amigas, a maioria rotulada como gays, lésbicas, ou palavras semelhantes. A comida e a bebida eram comuns e a conversa girava sobre história, poesia, literatura, futebol, religião, sexo. Cardápio variado de comida e de conversa, duas coisas do cotidiano de todos os seres humanos.

Ter direito ao pão de cada dia garante a sobrevivência, o direito ao sexo de todo dia ou de vez em quando transforma a sobrevivência em poema. O sexo é esse momento de ultrapassar limites, em que o corpo se propõe como lugar de mistério e de arrebatamento. Vivido amorosamente acrescenta à volúpia do carinho a profundidade da doação livre e mútua, entre dois seres humanos livres e disponíveis. O direito legítimo à carícia e ao amor é agora legalizado como pertencente a todo ser humano, sem a necessidade de rótulos.

Sem as cantigas das comemorações, o ruído dos protestos são feitos em nome da família e da religião. Novamente a questão das definições. Se família significa entre outras coisas o espaço para o crescimento mútuo de seres humanos e para o cuidado e educação de crianças, esses espaços são diversos, com diversos atores atuando em diversos papéis. Crianças criadas por pais ou mães do mesmo sexo não se tornaram necessariamente frustradas, drogadas ou marginais, nem mesmo homossexuais, terror de muitos.

Alguns religiosos se pronunciaram a favor da união estável mas não do casamento, prerrogativa das igrejas. Na sutileza semântica, a complicação lingüística. Carícias e palavras não podem ser patenteadas, a pretensão apenas convida à continuidade da luta. As religiões e as igrejas não são concessionárias das cerimônias nem proprietárias de Deus. O direito de crer (incluindo o direito de não crer) e o direito de amar são prerrogativas tão humanas quanto o direito de comer e de conversar.

Para os que pertencem ao campo religioso, como pertenço, a decisão do Supremo é oportunidade de aprofundamento, de busca de compreensão e de ressignificação. Livros, artigos, pesquisas, estudos densos sobre a sexualidade humana já são abundantes. Acima disso, o ser humano concreto, pessoas que vivem amor e sexualidade de modos diversos. Muitos que experimentaram sentimentos de alegria e de libertação quando assumiram a sua maneira de amar; muitos que não se sentem abandonados por Deus. Pelo contrário, diante da maldição de todos, somente contam com o sentimento da compreensão Dele, no espaço indevassável de sua interioridade.

Diante de tudo isso, podemos assumir vociferantes o papel de arautos da culpa, da vergonha e do remorso, ou celebrarmos a boa notícia (evangelho) da libertação e nos juntarmos à alegria de milhões de brasileiros e brasileiras que se sentiram acolhidos e protegidos pela lei, pela primeira vez na história. Por estranha e feliz coincidência este texto está sendo postado em um novo e diferente treze de maio.

Marcos Monteiro.

Feira de Santana, 13 de maio de 2011.
____________
*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também faz parte das diretorias do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. e da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil
CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mail cepesc@bol.com.br, site www.cepesc.com.
Fone: (71) 3266-0055.
Fonte: http://madoniram.blogspot.com/

quarta-feira, 20 de abril de 2011

E lá se vai...

Por que se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou prá trás
A primeiro passo
Por que se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio
E lá se vai...


Lô Borges/Márcio Borges e Milton Nascimento
(Clube da Esquina Nº2)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Nostalgia do Desconhecido.


Nostalgia, lembrei do dia, a beira do rio sentados na grama, um dia frio, te querendo na cama... Te tendo na mente que mente ao teu respeito de um feito não teu, meu pecado, esse sussurrado em poucas linhas, minhas, essas palavras escritas, mas não ouvidas, vividas as poesias em minhas crônicas, um dia de um corpo só, num nó meu, teu, nunca esquecido, fingido. Um dia que nunca existiu. Desconhecido.

terça-feira, 22 de março de 2011

Apenas o teu EU...


Ajoelhado aos seus pés, o EU romântico se rende a ti em uma paixão incontrolável, na busca do teu EU desconhecido, só visto nos poemas que não ousei escrever. O Deus que criaste em mim matou o Deus que havia outrora, me condenando ao lago de fogo, onde há chamas que ardem na vontade do teu corpo, nunca perdendo a esperança de possuí-lo... Não há mais em mim qualquer divindade ou humanidade que não seja criação tua, apenas o teu EU desconhecido que permiti viver em mim.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Num breve período de sempre.


Ando te querendo num breve período de sempre, sem querer te desejo em um pequeno prazo de eternidade, vivo te tomando nos pedaços de um completo, te entregando meu instante infinito e descobrindo que te amo em um vazio de plenitude... Sim, eu falo de todos Tu existente em mim, todos Tu, princípio, meio e fim.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Silêncio



“...conhecimento da fala mas não do silêncio,
conhecimento das palavras e ignorância da
Palavra...”
T.S. Elliot


Uma bolha sobe do fundo do mar...
Uma palavra sobe das funduras do nosso silêncio
inesperada,
impensada,
emissária de um mundo esquecido,
perdido:
suspiro,
nosso mistério,
nossa verdade,
oração.
Há palavras que dizemos porque delas nos lembramos.
Possuídas, guardadas, ficam lá, `a espera,
e vêm, obedientes, como animais
domésticos...
Mas há palavras que não dizemos: elas se dizem,
apesar de esquecidas.
Não são nossas:
moram em nós, sem permissão, intrusas
e não atendem a nossa voz.
São como o Vento,
que sopra onde quer.
e não sabemos nem como veio nem para onde vai.
Só ouvimos o sopro.
Nós dizemos: só ouvimos.
Assim as palavras da oração, esquecidas:
elas se dizem.
Fica a surpresa de que um pássaro selvagem como aquele
que mora em nós sem que o soubéssemos.
A palavra que diz a nossa verdade não habita em nosso saber.
Foi expulsa da morada dos pensamentos.
Sua aparência era estranha, dava medo.
Agora habita em porões,
mais no fundo:
longe do que sabemos,
ali, onde não pensamos,
ao abrigo da luz diurna,
no lugar dos sonhos,
suspiros sem palavras.
Elas são tímidas.
Não se misturam.
Falam uma língua estranha.
Babel,
que não entendemos,
e dizem do ar frio das montanhas
e da escuridão dos abismos.
Mas somos moradores das planícies
onde todos falam para não ouvir...
Temos medo das palavras que habitam as bolhas submarinas.
Por isso falamos.
Matracas: ferro na madeira:
clate/clate/clate/clate/clate.
palavras
contra a
Palavra.
Horror ao silêncio: nele moram as palavras de que fugimos:
Sobem do fundo do mar quando se sabem sozinhas...
Ensina-nos a orar porque já não sabemos...
Quando orares
não sejas como os artistas de palco:
falam palavras que não são suas, de outros,
decoradas,
e os seus rostos não são rostos,
máscaras.
Não querem ouvir as próprias palavras
(porque são ocos, não as têm...).
Seus ouvidos só ouvem os aplausos:
moscas, prisioneiros de teias alheias...
Entra no silêncio,
longe dos outros
e ouve as palavras que se dirão
depois de uma longa espera...
Terias coragem de exibir tua nudez frente aos estranhos?
Eles irão rir...
Como, então, poderias orar na sua frente?
Oração, nudez completa,
palavra que sobe do fundo escuro
e revela...
Perante Deus...
somente ele tem olhos mansos o bastante para
contemplar a nossa nudez e continuar a dizer:
“É muito bom que você exista...”
Nem mesmo nós...
Entra no silêncio
longe das muitas palavras
e escuta uma única Palavra
que irá subir do fundo do mar.
Uma única Palavra é mais poderosa que muitas:
pureza de coração é desejar uma só coisa...
Uma única Palavra:
aquela que dirias
se fosse a última a ser dita.
Basta ouvir uma vez e, então,
o silêncio...
Como Vênus, brilhante,
na imensidão azul do sol poente...
Antes que tu a tivesses ouvido,
o seu suspiro já reverberava pela eternidade...
Enquanto ela morava no teu esquecimento,
Deus já a ouvia
e tremia...
Faze silêncio..
Ouve...

Rubem Alves

Alves, R.; Pai Nosso: Meditações, Edições Paulinas, São Paulo, 1987, p. 7-10. 40

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

sei que já te encontrei...


Se a loucura acertar em cheio a minha sensibilidade de ter meu mundo aparte em uma cronologia particular, sei que ainda quero te encontrar...
Transformemos nosso amor em poesia e tudo se fará novo, levando no peito todo sonho e esperança até o mais alto, o lugar da nossa plenitude...
A partir de nós, tudo se aquece, um poema de amor será escrito pela verdade contida, encontrada e aceita, um poema que diz: sei que já te encontrei...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Qual mito você escolhe?


Os mitos, portanto, não são ilusões ou ficções. Tampouco são cientificamente, objetivamente, “verdadeiros”. Não têm como ser verdadeiros nesse sentido porque não existe uma realidade “lá fora” com a qual possamos comparar nossos mitos, do modo como comparamos uma hipótese com os resultados de uma experiência científica. Mais precisamente, não existe um “lá fora” porque não somos capazes nem de começar a enxergar esse “lá fora” sem o auxílio dos óculos providos pelo mito. Para dizer de outra forma, não temos como escapar de nossa humanidade. Temos de levar conosco um mito – algum mito; se não for um será outro. Sem a obra ordenadora dos mitos, não podemos sequer começar a encontrar um sentido para o mundo. A questão não é com mito ou sem mito, mas qualmito, qual mecanismo organizatório ou estrutural escolhemos usar.

O rabino Neil Gillman, em The Death of Death (1997)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Vontade de ti.

Vontade de ti... assim mesmo, desse jeito, sem rodeios, como se mostra ser... Vontade de ti... assim sem medo de errar, sem esperar, desse jeito, como quem não está afim do despeito... Vontade de ti... em uma frase, num texto, num olhar, em um comentário, no armário, sem pudor, no calor, sem dor, tua cor, pecado, safado, eu a te querer, assim, tanto que me ponho a escrever... Vontade de ti...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Parágrafos ou entrelinhas.



Te canto nos Cantares de Salomão e na sua vaidade de vaidades me entrego, te espero na revelação e me revelo nos romances de Shakespeare. Te seduzo nos contos idealista comunistas e te convido aos muinhos de vento a sortes fantasiosas. Finalmente te possuo no que escrevo e me entrego na banalidade.., porém em tudo te convenço que te amo, no que está escrito ou falado, no parágrafo ou entrelinhas, nos enigmas dessas crônicas, tuas ou minhas...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Do velho som dividi meus versos.



Dei um aperto de saudade no meu tamborim
Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas
Dei meu tempo de espera para a marcação e cantei
A minha vida na avenida sem empolgação.

Fiz o estandarte com as minhas mágoas
Usei como destaque a tua falsidade
Do nosso desacerto fiz meu samba enredo
Do velho som do minha surda dividi meus versos.

Nas platinelas do pandeiro coloquei surdina
Marquei o último ensaio em qualquer esquina
Manchei o verde esperança da nossa bandeira
Marquei o dia do desfile para quarta-feira.

Vai manter a tradição
Vai meu bloco tristeza e pé no chão...

Armando Fernandes

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O olhar dos olhos...


Olhei pra você ontem, o olhar dos olhos, o que julga e o que define, vi, não aquilo que és e sim aquilo que tomei por existir, o olhar dos olhos, linda e efêmera que vêm e vai sem medo e sem pudor... Olhei pra você ontem e na sua transgressão que meu olho vê, você se tornou melhor... Tua transgressão evolui. Estou olhando para você hoje...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Este feliz aparato de glória...


Não se muda a história com lágrimas, gente como nós; burgueses, fracos, mas eu assumo os riscos. Minha loucura e minha consciência estão aqui no momento da verdade, na hora da decisão, na luta, mesmo na certeza da morte, precisamos resistir e eu preciso cantar...

Não é mais possível essa festa de medalhas, este feliz aparato de glória, essa esperança dourada nos planaltos, não é mais possível essa marcha de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posição... haaa se não é possível a igenuidade da fé, a impotência da fé...


Trecho extraído do filme “Terra em Transe” de Glauber Rocha

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Hoje, amanhã e depois...

"Para vós invoco os prazeres que voam nos ventos e as alegrias que moram nas cores: beleza, harmonia, encantamento, magia, mistério, poesia: que essas potências divinas lhes façam companhia.
Que o sorriso de um seja, para o outro, festa, fartura, mel, peixe assado no fogo, côco maduro na praia, onda salgada do mar...
Que as palavras do outro sejam tecido branco, vestido transparente de alegria, a ser despido por sutil encantamento.
E que no final das contas e no começo dos contos, em nome do nome não-dito, bem-dito,em nome de todos os nomes ausentes e nostalgias presentes, de ágape e filia, amizade e amor, em nome do nome sagrado, do pão partido e do vinho bebido, sejam felizes os dois, hoje, amanhã e depois...

Rubem Alves

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Apenas pingos.


Descobri o desenho da sua alma... abstrata e bicolor, resumida em poucos pingos, simples, porém complexo, perfeito, porém sem sentido, apenas pingos ou apenas você... Descobri o desenho da sua alma em pingos de tinta que não ousarei retoca-lo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estraño


Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que o prazer é tão curto
Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que esquecimento é tão longo...

Thedy Corrêa - Nenhum de Nós

sábado, 28 de agosto de 2010

Castelo.


No meu mundo aparte há um castelo de muros altos e paredes fortes, onde o grito da alma é abafado e o amor pela razão é roubado, onde a paixão me condena e tua falta me mata, onde tu és apenas uma criada e eu o plebeu que te ama por nada... Sem troca ou retribuição, apenas a DOR, por provar uma dose profunda de AMOR...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"Encore une fois."


Tenente-coronel aviador T.S. Rippon:

683. O que o senhor acha da questão da vida após a morte?

Prof. Jung:
684. Ainda não estive lá conscientemente. Quando morrer, direi: "Agora vamos ver". No tempo presente tenho esta forma e digo: "O que temos aqui? Vamos fazer tudo que pudermos aqui". Se após a morte eu perceber que há nova vida, direi: "Vamos viver outra vez - encore une fois". Eu nada sei sobre isso, mas posso dizer-lhe: o inconsciente não conhece tempo. Parte de nossa psique não está no tempo nem no espaço. Espaço e tempo são meras ilusões, e assim não existe tempo para determinada parte de nossa psique.


Mr. Derek Kitchin:

685. O senhor escreveu em algum lugar que para muitas pessoas a crença numa vida futura era
necessária para sua saúde psicológica.

Prof. Jung:

686. Sim. Perderíamos o equilíbrio se não considerássemos a imortalidade, quando os sonhos confrontam alguém com o problema; então deveríamos decidir. Se eles não o fazem, deixe ficar como está. Mas se eles o confrontarem, é preciso dizer: "Preciso descobrir o que sinto a respeito. Digamos que não existe algo como imortalidade, nenhuma vida após a morte: o que passarei a sentir então? Como viverei com esta convicção?" Neste caso talvez seu estômago comece a criar problemas. Então você diz:"Digamos que eu seja imortal" e aí você se sente bem e chega a esta conclusão: "Isto deve estar certo". Como podemos saber? Como sabe um animal que o bocado de capim que comeu não é venenoso? E como sabem os animais que algo é venenoso? Eles adoecem. É assim que conhecemos a verdade: a verdade é aquilo que nos ajuda a viver - a vi ver adequadamente.

CAPÍTULO III: A VIDA SIMBÓLICA
(OBRAS COMPLETAS DE C. G. JUNG - VOL. XVIII/I)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Aparentemente tolo.


Nosmaj perguntou a Osna qual o sentido da divindade para aquele ao qual a divindade não havia e Osna respondeu sem meias palavras que dependeria de que divindade Nosmaj se referia. Nosmaj bem direto exclamou Jesus de Nazaré e Osna responde serenamente que realmente não fazia nenhum sentido... porém Osna completa dizendo que há um Jesus que não é visto nas letras nem nos alaridos religiosos, não é visto nos movimentos litúrgicos e muito menos nos outdoors, mas dentro daqueles que não se conformam com a falta e o silêncio do amor.
Nosmaj pareceu concordar com o argumento simples e aparentemente tolo de Osna, mas em alguns segundos de silêncio Nosmaj sussurrou baixinho que todo aquele que crê em Jesus será salvo, Osna sorriu o sussurrou uma resposta: O fato de não acreditar na existência desse aí é tão importante mesmo para você? Certamente amigo, seremos salvos...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Anos atrás...


Passam os anos
E como muda o que eu sinto
O que ontem era amor
Vai se tornando outro sentimento
Porque anos atrás
Tomar tua mão, roubar-te um beijo
Sem forçar o momento
Fazia parte de uma verdade ...

Pablo Milanez

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Trabalho!!



Aí + uma matéria para o Esporte Espetacular... O Ceará World Cup Skateboard 2010, 1ª etapa do Mundial!! foi do Caralho...

Imagens Anderson Rodrigues

quinta-feira, 15 de julho de 2010

AMOR E SEU TEMPO

Ao amigo Wendel, que dos românticos é o primeiro, dedico Drumont... pois...

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drumont de Andrade

terça-feira, 6 de julho de 2010

Naquela hora.

Ela sentiu falta do meu braço que a confortava na hora do pesadelo, do meu corpo na hora do frio e da minha boca na hora do libido. Os dias estavam tristes, mas aquele pareceu mais triste que os outros, ela me disse isso em um terno olhar.

efêmero

O apaixonado pensa que seu amor será eterno. É preciso não estar apaixonado para compreender que a paixão é bolha de sabão: linda e efêmera. Não é possível confiar na eternidade do amor.
Rubem Alves

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O tal trajeto.

Olhando meu All Star de pernas para o ar, lembro dos caminhos percorridos com ele, alegrias frustrações, conquistas, percas, experiências, conhecimento, abdicações e ecolhas decisivas que definiriam um triste fim, porém pleno ou talvez um fim feliz e incompleto. As pegadas deixadas parecem mais uma assinatura no trajeto, que por fim é no meio "o tal trajeto" onde está o sentido das coisas, e os buracos no sapato são as coisas de sentido.
As vezes acho que estou ficando doido ou coisa parecida, principalmente quando meu All Star fala comigo, aí então lhe pergundo por quais caminhos desejaria andar a partir de hoje e então ele me responde que desejaria andar em qualquer caminho que minhas decisões o levasse, e de preferência algum que fizesse buracos tão marcantes quanto os caminhos percorridos outrora, logo o repreendi pela sua falta de personalidade por nem ter dado uma opinião ou questionado minhas escolhas, daí então ele fez a seguinte pergunta: Quer prosseguir descalço? Leventei e continuei a seguir.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Bom Esquecimento!

O esquecimento, freqüentemente, é uma graça. Muito mais difícil que lembrar é esquecer! Fala-se de “boa memória”. Não se fala de “bom esquecimento”, como se esquecimento fosse apenas memória fraca. Não é não.
Esquecimento é perdão, o alisamento do passado, igual ao que as ondas do mar fazem com a areia da praia durante a noite.

Rubem Alves

quinta-feira, 17 de junho de 2010

As cercas também tem suas belezas.



Certa vez encontrei uma cerca no caminho da minha vida, cerca que me separou de coisas que mais pude amar nessa estrada, cerca que me impediu de conhecer o outro lado e me privou da beleza do meu bem querer nas vontades mais verdadeiras. Quando a encarei percebi que poderia pular e burlar uma tragetória lógica, podendo ser definida como destino escrito com minhas próprias mãos, porém também tinha escolhas que poderia fazer construindo um novo caminho que só Eu poderia prevê-lo aliado aos acasos que dariam sentido a tragetória, e assim o fiz.
O mais incrível de tudo isso, foi o momento ao lado da cerca iluminada com os raios do sol onde entendi o sentido das escolhas para a construção do nosso próprio caminho, rumo ao próprio destino... As cercas também tem suas belezas.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Do meu lado suplico meu destino.



"(...) meu pensamento profundo do dia: é a primeira vez que encontro alguém que procura as pessoas e que vê além. Isso pode parecer trivial, mas acho, mesmo assim, que é profundo. Nunca vemos além de nossas certezas e, mais grave ainda, renunciamos ao encontro, apenas encontramos a nós mesmos sem nos reconhecer nesses espelhos permanentes. Se nos déssemos conta, se tomássemos consciência do fato de que sempre olhamos apenas para nós mesmos no outro, que estamos sozinhos no deserto, enlouqueceríamos. Quando minha mãe oferece petisfours da casa Ladurée à sra. de Broglie, conta a si mesmaa história de sua vida e apenas mordisca seu próprio sabor; quando papai toma o café e lê o jornal, contempla-se num espelho do gênero manual de autoconvencimento ; quando Colombe fala das aulas de Marian, deblatera sobre seu próprio reflexo, e quando as pessoas passam diante do concierge, só vêem o vazio porque ali não se reconhecem.
Do meu lado suplico meu destino que me conceda a chance de ver além de mim mesma e encontrar alguém."

trecho extraído do livro: "A elegância do ouriço" de Barbery.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Próprio.



Quando o teu Eu próprio encontra o próprio outro, os dois se transformam em um próprio singular. As propriedades então passam a se multiplicar propriamente livres, onde o teu Eu próprio passa a fazer parte do próprio alheio, unidos aos próprios diversos se tornam um próprio comum que define a propriedade múltipla.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A verdade.


A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade…
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

Tudo de nós.



Hoje somos dignos de tudo, porém nem tudo é digno de nós, e o melhor da dignidade é que ela nos confunde com o tudo...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Quem me dera tu...


Quem me dera tu, uma menina e uma flor, um lírio num suspiro de cor... laranja ou verde limão, estrela do dia na poesia da dor, alegria, sorte, sabor... doce ou amargo nos versos de um poeta cego de amor... Quem me dera tu no tu inteiro de mim... Quem me dera tu na minha falta de ti...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Procurando melhorar...



Na mesa do café da manhã a família está toda reunida. Mulher sentada com os dois filhos, e o sogro, lendo seu jornal.

Seu marido chega ainda sonolento, com aspecto de cansado carregando na mão um bloco de notas, senta do lado do pai e cochicha baixinho: 

-Pai, programei todo o meu dia, anotei tudo pra não correr o risco de esquecer. 

Então o homem começa a ler o que tem escrito no bloco de anotações: 

-Depois do café da manhã, deixarei as crianças na escola. Depois farei uma caminhada de uma hora. Otimizarei meu tempo no trabalho resolvendo todos os problemas antecipadamente. Vou pegar a Marilia para almoçar. Retornarei ao trabalho e saindo de lá vamos ao shopping da uma volta. Hoje tem reunião do condomínio nunca vou, nem sei como estão as coisas. Quando voltar ajudarei as crianças na lição da escola. E então pra fechar o dia vou colocá-las para dormir. O senhor verá, vou criar um ritmo bacana todos os dias.

Seu pai sorri timidamente e dando um tapinha nas costas dele, responde baixinho no seu ouvido: 

-Que bom que você está procurando melhorar meu filho, primeiro essa vida sedentária não leva ninguém a nada, segundo você tem que participar das reuniões aqui do condomínio, todo mundo até pensa que você não mora mais aqui.

Então ele levanta vestido com roupa de academia e diz: 

-Desculpa garotão, mas eu já venho fazendo tudo isso a muito tempo. Agora não sei é se você vai conseguir me acompanhar.

-Vamos lá criançada, ta na hora de ir.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Sermão de Páscoa.



Todos querem a ordem e sabedoria de Paulo,

mas nem todos querem a desordem e ousadia de Jesus.
Todos querem o respeito e liderança de Moisés,
mas nem todos querem a vergonha e simplicidade de Jesus.
Todos buscam o poder de Eliseu,
mas nem todos a fraqueza de Jesus.
Todos almejam a glória de Davi,
mas nem todos o vexame de Jesus.
Todos querem as palavras de Isaias,
mas nem todos a pregação ao pobre de Jesus.
Todos pregam o zelo e temor dos profetas,
mas nem todos a graça e subversão de Jesus.
Todos querem o céu de Elias,
mas nem todos querem o inferno de Jesus.

Todos querem a ressurreição de Jesus,
nem todos a páscoa de Jesus.

WILSON TONIOLI